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Mostrando postagens de março, 2026

Mosaico

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Mosaico  nasce de um amadurecimento que não é apenas literário, mas de vida. Depois de anos acreditando que a narrativa contínua era o caminho natural para contar uma trajetória, compreendi que a vida não se oferece assim. Ela chega em fragmentos: cenas breves, lembranças que insistem, pensamentos que retornam sob outra luz. Este livro reúne textos escritos a partir desse reconhecimento — e dessa necessidade. Cheguei a um momento em que revisitar o cotidiano tornou-se uma forma de revisitar a mim mesmo. Escutar o que ressoa nos gestos mínimos, nas conversas, nos lugares, permitiu-me entender não apenas quem fui e quem sou, mas o que as épocas que atravessamos fizeram de nós. Mosaico nasce desse impulso: transformar experiência vivida em reflexão e iluminar zonas que ficaram à sombra. Escrevo porque acredito no poder da narrativa da vida em transformar a própria vida — e porque algumas histórias só fazem sentido quando compartilhadas. As crônicas partem do instante vivido; os e...

O mundo visto em pequenas peças

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Os romanos cobriam o chão de suas casas com histórias. Pequenas pedras coloridas, alinhadas com paciência, revelavam deuses distraídos, animais em movimento, cenas de caça, banquetes e gestos cotidianos. Nada era grande por si só: cada imagem dependia de infinitas partes minúsculas, como se a vida só pudesse ser compreendida quando observada peça a peça. Séculos depois, no Rio de Janeiro, outro mosaico se estende sob os pés de quem caminha sem pressa. As calçadas de Copacabana, com suas ondas pretas e brancas, não contam mitos nem narram batalhas, mas desenham o próprio ritmo do mar. São um mosaico cotidiano, atravessado por passos anônimos, encontros casuais, lembranças e despedidas. Um chão que se move mesmo sendo pedra, e que só existe porque alguém decidiu transformar fragmentos em paisagem. Também, no Rio de Janeiro, o que poucos lembram, ou sequer sabem, é que o Cristo Redentor, aquele gigante de braços abertos abençoando a cidade, não é liso, nem uniforme. Ele é revestido de p...

Ser paulistano

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Hoje, 25 de janeiro de 2026, Medellín amanheceu com a beleza do seu céu de montanhas e nuvens, mas quem ocupou a minha sala, a minha televisão e o meu peito foi ela: São Paulo. Quatrocentos e setenta e dois anos. Uma senhora que nunca envelhece, porque reinventa o próprio tempo. E eu, tão longe e tão perto, senti aquele velho nó na garganta — o mesmo que aparece quando a memória decide puxar a cadeira ao meu lado e se sentar para conversar. São Paulo é o meu berço. Minha primeira paisagem. Nasci ali perto da avenida Paulista, na Maternidade São Paulo, como quem já chega ao mundo em meio ao ruído dos motores, à pressa das calçadas e ao vaivém incessante da cidade grande. Cresci junto com ela. Enquanto eu aprendia a ser gente, São Paulo aprendia a ser metrópole.  Enquanto as imagens da avenida Paulista desfilavam na tela, lembrei-me de que ali fui feliz de um jeito que só a juventude sabe ser. Cresci entre buzinas e livrarias, amei sob garoas teimosas, fui desafiado por cada esquin...