Ser paulistano

Hoje, 25 de janeiro de 2026, Medellín amanheceu com a beleza do seu céu de montanhas e nuvens, mas quem ocupou a minha sala, a minha televisão e o meu peito foi ela: São Paulo. Quatrocentos e setenta e dois anos. Uma senhora que nunca envelhece, porque reinventa o próprio tempo. E eu, tão longe e tão perto, senti aquele velho nó na garganta — o mesmo que aparece quando a memória decide puxar a cadeira ao meu lado e se sentar para conversar.

São Paulo é o meu berço. Minha primeira paisagem. Nasci ali perto da avenida Paulista, na Maternidade São Paulo, como quem já chega ao mundo em meio ao ruído dos motores, à pressa das calçadas e ao vaivém incessante da cidade grande. Cresci junto com ela. Enquanto eu aprendia a ser gente, São Paulo aprendia a ser metrópole. 

Enquanto as imagens da avenida Paulista desfilavam na tela, lembrei-me de que ali fui feliz de um jeito que só a juventude sabe ser. Cresci entre buzinas e livrarias, amei sob garoas teimosas, fui desafiado por cada esquina que parecia me perguntar se eu estava pronto para mais um passo. Produzi, sonhei, tropecei, recomecei. E naquele universo que nunca dorme, aprendi a ganhar o mundo — ou, pelo menos, a acreditar que ele cabia dentro de mim.

Foi dali, quase sempre começando por Congonhas, que ganhei o mundo. Amo aquele aeroporto. Quando criança, passava horas observando aviões, fotografando decolagens, sonhando destinos. Congonhas não era só um aeroporto: era promessa. Talvez por isso, em tantos lugares por onde passei, o que ficou foram histórias intensas — acontecimentos memoráveis, encontros e despedidas, alegrias e tragédias, amores e desamores, justiças e injustiças. Tudo vivido com a intensidade típica de quem aprende cedo que a vida não anda devagar.

Foi em São Paulo que a música se tornou parte de mim. Entre estúdios, palcos e madrugadas, a bateria virou extensão do meu corpo e me levou a gravações e eventos que hoje fazem parte da história da MPB. Livros, discos e vídeos espalhados por livrarias e plataformas de streaming registram essa travessia: o baterista que acompanhou vozes e movimentos que marcaram gerações, deixando pegadas discretas, porém firmes, na memória cultural do país.

São Paulo, com seus bares e clubes de jazz, teatros históricos e festivais memoráveis, abriu portas que eu nem sabia existir e me permitiu entrar para a memória musical brasileira não só como testemunha, mas como parte da engrenagem que fez a música acontecer.

Mais tarde, me tornei um executivo, transitando entre empresas nacionais e multinacionais. Mudei de profissão, de ritmo, de cenário. São Paulo permaneceu. Sempre esteve ali, como pano de fundo da minha própria transformação.

Sou descendente de italianos, adoro comida italiana, parques, museus, cinemas, shoppings, restaurantes e botecos. O Parque Ibirapuera, então, é quase um parente. Andar pelas ruas e avenidas, cruzar a cidade de metrô, observar gente de todo tipo — tudo isso sempre me pareceu profundamente estimulante. Nada mais paulistano, não é?

Mas, com o tempo, desenvolvi com São Paulo uma relação de amor e ódio. Uma convivência intensa, como costumam ser as relações verdadeiras. Sempre me intrigaram as contradições de uma cidade tão rica e, ao mesmo tempo, tão desigual.

Curiosamente, foi vivendo no exterior, trabalhando diariamente com o Brasil e falando das suas virtudes, que aprendi uma lição definitiva: descobri que sou apaixonado por São Paulo. Aprendi a perdoá-la. A criticar menos. A reconhecer que suas qualidades superam, em muito, seus defeitos.

Claro que sigo desejando uma cidade mais igualitária, mais justa, mais humana. Mas hoje o orgulho fala mais alto. É bom saber que tenho raízes ali. Que pertenço.

Raízes feitas de coisas simples e eternas: a pizza com vinho tinto, o pão francês na chapa das padarias, a gastronomia que acolhe todos os sotaques, os eventos que transformam qualquer terça-feira em espetáculo. Os amigos que ficaram, os que a vida levou para longe e os que, de repente, reaparecem por acaso na imensidão da cidade — como se São Paulo, gigante como é, ainda guardasse pequenos milagres de reencontro.

A Fórmula 1, que de vez em quando rasga o autódromo de Interlagos como se o tempo pudesse ser vencido na marra.

Raízes! As grandes empresas onde aprendi a negociar com o mundo e a entender que São Paulo conversa com o planeta inteiro. O meu Esporte Clube Pinheiros, onde conversas, jogos de tênis, caipirinhas e domingos ensolarados começavam sem hora para terminar — e onde vivi momentos inesquecíveis tocando com a banda de jazz. Hoje, quando volto para matar a saudade, caminhar por aquelas alamedas é quase uma viagem no tempo. É ali que encontro o sentimento de lar. Além da beleza — sim, ele é lindo — há uma alegria silenciosa em simplesmente estar ali. Sinto-me feliz.

E há ainda as raízes da alma: a cultura que pulsa como um coração inquieto, as livrarias, os shows de jazz, as noites de ópera no Teatro Municipal ao lado da minha mãe, aquele prédio sempre altivo, sempre belo, como um guardião da cultura e das emoções da cidade.

E, claro, o Corinthians. Desde menino, ele me ensinou que torcer é uma mistura curiosa de fé, sofrimento e alegria. São Paulo inteira já vibrou muitas vezes com seus títulos — e agora, no começo de 2026, mais uma vez campeão da Super Copa do Brasil. Vai Corinthians!

A vida, caprichosa como sempre, acabou me conduzindo por outros caminhos. Hoje, com o coração sereno, sinto que uma etapa inteira da minha jornada se completou. Encerrei meu ciclo em São Paulo com gratidão — por cada momento vivido, cada aprendizado conquistado, cada despedida que, cedo ou tarde, se impôs.

Agora vivo em Medellín, abraçado pela imponência das montanhas que me cercam. Aqui, a vida parece respirar noutro ritmo, o tempo em outro compasso — porém sem perder o dinamismo e a modernidade. Após anos neste lugar, surpreendo-me ao perceber como cada canto guarda histórias e memórias prontas para virar crônica, como se o tempo tivesse parado apenas para ser contado novamente. 

Mas, em dezembro estive lá — e estou sempre indo e voltando, como quem visita um amor que nunca se desfaz. E a cada retorno, São Paulo me surpreende com sua grandiosidade, como se dissesse: “Ainda não te mostrei tudo.”

Guardo comigo uma frase de uma personagem icônica da nossa MPB, que hoje vive nos meus discos, nas minhas fotos, nos meus livros e nas prateleiras da minha biblioteca: “ser paulistano é ser contemporâneo.” Talvez seja isso. Ser paulistano é estar sempre um passo à frente e, ao mesmo tempo, com um pé fincado na memória. É carregar o futuro no bolso e a saudade no peito.

Parabéns, São Paulo. Que teus 472 anos continuem sendo esse convite permanente ao movimento, ao encontro, ao risco e ao renascimento. E parabéns a todos os paulistanos espalhados pelo mundo — especialmente aqueles que, como eu, continuam pertencendo a essa cidade mesmo quando vivem longe dela.

 

 

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