O menino diante do espelho
De vez em quando, quando a casa amanhece silenciosa e o mundo lá fora parece distraído, eu me aproximo do espelho. Não para ajeitar o cabelo — isso já não me preocupa há tempos — mas para reencontrar alguém que insiste em me visitar: o menino que fui. Ele aparece sempre do mesmo jeito, curioso, com aquela pergunta que os adultos adoravam fazer:
— Menino, o que você quer ser quando crescer?
E eu, sem hesitar:
— Bombeiro. Ou piloto de avião.
Mais tarde, quando descobri que o coração também tem ritmo, acrescentei:
— Ou baterista.
O espelho ri, porque sabe que a vida tem mania de dobrar esquinas que a gente nem imaginava. E então me devolve, como num filme acelerado, o homem que fui virando: músico, programador de computadores, gestor, educador em tecnologia. Viajei de avião — não pilotando, mas olhando pela janelinha sempre encantado com as nuvens — e apaguei muitos incêndios, desses que não aparecem no noticiário, mas consomem empresas, projetos e noites mal dormidas.
Hoje, no auge da maturidade — que é só um jeito elegante de dizer que já vivi bastante — pergunto ao espelho quem eu sou agora. Ele não responde, mas eu respondo por ele: Sou Professor e Coach Educacional, Administrador por formação, Músico e Educador por vocação. Sou feito de memórias que me atravessaram e de aprendizagens que me escolheram. Sou, sobretudo, apaixonado pela Educação.
Se alguém me perguntasse hoje “quem é você?”, talvez eu dissesse: Sou o conjunto de crenças que carrego desde menino. Crenças que moram no meu subconsciente e puxam os fios invisíveis do que digo, faço, penso e sinto.
E se me perguntassem quem as pessoas acham que eu sou? Aí eu sorriria: Não sei. Cada pessoa vive dentro de um mundo particular, com suas próprias lentes, suas próprias histórias. Interpretam-me como podem — ou como precisam. E tudo bem. Cada um carrega seu espelho.
Lembro-me de uma ideia divertida que surgiu entre amigos de Fernando Sabino: criar a Associação dos Ex-Meninos. A missão seria nobre — resgatar as antigas funções essenciais da infância: jogar botão, rodar pião, disputar bola de gude, brincar de pegador, trocar figurinhas. Sabino dizia que, se conseguíssemos reencontrar o menino dentro de nós, haveria mais paz no mundo e mais alegria entre os homens.
Assino embaixo. Com tinta permanente.
Hoje ninguém mais me pergunta o que quero ser quando crescer. Mas se perguntassem, eu responderia sem pensar:
— Quero ser menino.
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