O mosaico ficava num
triclínio de verão, uma sala de jantar ao ar livre. Imagino um comerciante rico
— talvez orgulhoso demais, talvez apenas apaixonado pelo mar — recebendo amigos
ali, enquanto a fonte do ninfeu murmurava ao fundo. Entre taças de vinho e
conversas sobre rotas marítimas, Neptuno e Anfitrite observavam tudo,
discretos, imóveis, cúmplices.
A moldura do mosaico é um
pequeno delírio de conchas, flores e geometrias. Um convite para entrar no
mundo líquido daquela casa. E eu fico pensando que, no fundo, toda casa tem seu
altar secreto. O deles era esse: um casal divino, eternamente juntos, eternamente
coloridos, eternamente olhando para quem passa — como se perguntassem se nós,
mortais apressados, ainda sabemos contemplar alguma coisa.
E assim, contemplando esta obra-prima, foi
nascendo em mim a ideia do livro Mosaico, fragmentos do cotidiano.

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