Numa casa de nome quase solene, “Casa de Neptuno e Anfitrite”, na cidade de Herculano, na Itália, eles aparecem: o casal mais antigo que já vi, parado ali há quase dois milênios, sem nunca ter discutido por causa de toalhas molhadas ou janelas abertas. Neptuno, nu e tranquilo, olha para a eternidade com a calma de quem sabe que o mar sempre volta. Anfitrite, ao lado, parece ter aceitado o destino de ser musa aquática desde sempre. 

O mosaico que os sustenta — feito de pequenas pastilhas de vidro colorido — ainda brilha como se tivesse sido lavado ontem, e não soterrado por um fluxo de lama vulcânica em 79 d.C. É curioso pensar que Pompeia virou cinza, mas Herculano virou memória envernizada. A lama quente, que deveria destruir, acabou preservando. Como se o Vesúvio, num gesto contraditório, tivesse decidido guardar algumas coisas para si.

O mosaico ficava num triclínio de verão, uma sala de jantar ao ar livre. Imagino um comerciante rico — talvez orgulhoso demais, talvez apenas apaixonado pelo mar — recebendo amigos ali, enquanto a fonte do ninfeu murmurava ao fundo. Entre taças de vinho e conversas sobre rotas marítimas, Neptuno e Anfitrite observavam tudo, discretos, imóveis, cúmplices.

A moldura do mosaico é um pequeno delírio de conchas, flores e geometrias. Um convite para entrar no mundo líquido daquela casa. E eu fico pensando que, no fundo, toda casa tem seu altar secreto. O deles era esse: um casal divino, eternamente juntos, eternamente coloridos, eternamente olhando para quem passa — como se perguntassem se nós, mortais apressados, ainda sabemos contemplar alguma coisa.

E assim, contemplando esta obra-prima, foi nascendo em mim a ideia do livro Mosaico, fragmentos do cotidiano.

 

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