Numa casa de nome quase solene, “Casa de Neptuno e Anfitrite”, na cidade de Herculano, na Itália, eles aparecem: o casal mais antigo que já vi, parado ali há quase dois milênios, sem nunca ter discutido por causa de toalhas molhadas ou janelas abertas. Neptuno, nu e tranquilo, olha para a eternidade com a calma de quem sabe que o mar sempre volta. Anfitrite, ao lado, parece ter aceitado o destino de ser musa aquática desde sempre. O mosaico que os sustenta — feito de pequenas pastilhas de vidro colorido — ainda brilha como se tivesse sido lavado ontem, e não soterrado por um fluxo de lama vulcânica em 79 d.C. É curioso pensar que Pompeia virou cinza, mas Herculano virou memória envernizada. A lama quente, que deveria destruir, acabou preservando. Como se o Vesúvio, num gesto contraditório, tivesse decidido guardar algumas coisas para si. O mosaico ficava num triclínio de verão, uma sala de jantar ao ar livre. Imagino um comerciante rico — talvez orgulhoso demais, talvez apenas...