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Numa casa de nome quase solene, “Casa de Neptuno e Anfitrite”, na cidade de Herculano, na Itália, eles aparecem: o casal mais antigo que já vi, parado ali há quase dois milênios. Neptuno, nu e tranquilo, olha para a eternidade com a calma de quem sabe que o mar sempre volta. Anfitrite, deusa grega dos mares, ao lado, parece ter aceitado o destino de ser musa aquática desde sempre.  O mosaico que os sustenta — feito de pequenas pastilhas de vidro colorido — ainda brilha como se tivesse sido lavado ontem, e não soterrado por um fluxo de lama vulcânica em 79 d.c. É curioso pensar que Pompeia virou cinza, mas Herculano virou memória envernizada. A lama quente, que deveria destruir, acabou preservando. Como se o Vesúvio, num gesto contraditório, tivesse decidido guardar algumas coisas para si. O mosaico ficava num triclínio de verão, uma sala de jantar ao ar livre. Imagino um comerciante rico — talvez orgulhoso demais, talvez apenas apaixonado pelo mar — recebendo amigos ali, enqua...

Mosaico

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Mosaico nasce de um amadurecimento que não é apenas literário, mas de vida. Depois de anos acreditando que a narrativa contínua era o caminho natural para contar uma trajetória, compreendi que a vida não se oferece assim. Ela chega em fragmentos: cenas breves, lembranças que insistem,  pensamentos que retornam sob outra luz. Este livro reúne textos escritos a partir desse reconhecimento — e dessa  necessidade. Cheguei a um momento em que revisitar o cotidiano tornou-se uma forma de revisitar a mim mesmo. Escutar o que ressoa nos gestos mínimos, nas conversas, nos lugares, permitiu-me entender não apenas quem fui e quem sou, mas o que as épocas que atravessamos fizeram de nós. Mosaico nasce desse impulso: transformar experiência vivida em reflexão e iluminar zonas que ficaram à sombra. Escrevo porque acredito no poder da narrativa da vida em transformar a própria vida — e porque algumas histórias só fazem sentido quando compartilhadas. As crônicas parte...

O mundo visto em pequenas peças

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Os romanos cobriam o chão de suas casas com histórias. Pequenas pedras coloridas, alinhadas com paciência, revelavam deuses distraídos, animais em movimento, cenas de caça, banquetes e gestos cotidianos. Nada era grande por si só: cada imagem dependia de infinitas partes minúsculas, como se a vida só pudesse ser compreendida quando observada peça a peça. Séculos depois, no Rio de Janeiro, outro mosaico se estende sob os pés de quem caminha sem pressa. As calçadas de Copacabana, com suas ondas pretas e brancas, não contam mitos nem narram batalhas, mas desenham o próprio ritmo do mar. São um mosaico cotidiano, atravessado por passos anônimos, encontros casuais, lembranças e despedidas. Um chão que se move mesmo sendo pedra, e que só existe porque alguém decidiu transformar fragmentos em paisagem. Também, no Rio de Janeiro, o que poucos lembram, ou sequer sabem, é que o Cristo Redentor, aquele gigante de braços abertos abençoando a cidade, não é liso, nem uniforme. Ele é revestido de p...

Ser paulistano

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Hoje, 25 de janeiro de 2026, Medellín amanheceu com a beleza do seu céu de montanhas e nuvens, mas quem ocupou a minha sala, a minha televisão e o meu peito foi ela: São Paulo. Quatrocentos e setenta e dois anos. Uma senhora que nunca envelhece, porque reinventa o próprio tempo. E eu, tão longe e tão perto, senti aquele velho nó na garganta — o mesmo que aparece quando a memória decide puxar a cadeira ao meu lado e se sentar para conversar. São Paulo é o meu berço. Minha primeira paisagem. Nasci ali perto da avenida Paulista, na Maternidade São Paulo, como quem já chega ao mundo em meio ao ruído dos motores, à pressa das calçadas e ao vaivém incessante da cidade grande. Cresci junto com ela. Enquanto eu aprendia a ser gente, São Paulo aprendia a ser metrópole.  Enquanto as imagens da avenida Paulista desfilavam na tela, lembrei-me de que ali fui feliz de um jeito que só a juventude sabe ser. Cresci entre buzinas e livrarias, amei sob garoas teimosas, fui desafiado por cada es...

A casa antiga

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    A casa da adolescência, em São Paulo, nunca desapareceu. Sumiu do terreno, é verdade — virou reforma, poeira, outra história —, mas continua inteira dentro de mim, preservada como aquelas fotografias que o tempo insiste em não desbotar. Meu pai a comprou no auge da vida profissional, orgulhoso da modernidade que ela exibia. Para mim, era simplesmente o cenário dos anos mais felizes que já vivi. Ainda caminho, por dentro de mim, por aquele corredor comprido que parecia maior cada vez que eu o lembrava. Era por ali que os carros deslizavam até a garagem escondida no fundo do terreno, como quem chega devagar para não acordar a casa. Na frente, o jardim e a fonte — cuidados por minha mãe com a mesma dedicação de quem cria um filho — davam as boas-vindas a quem chegasse. E havia o quintal, sempre ensolarado, onde o salão guardava o velho Steinway & Sons e todos os ecos que só as casas que já viram muita vida conseguem guardar. Com o tempo, descobri que a memória n...

O menino diante do espelho

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  De vez em quando, quando a casa amanhece silenciosa e o mundo lá fora parece distraído, eu me aproximo do espelho. Não para ajeitar o cabelo — isso já não me preocupa há tempos — mas para reencontrar alguém que insiste em me visitar: o menino que fui. Ele aparece sempre do mesmo jeito, curioso, com aquela pergunta que os adultos adoravam fazer: — Menino, o que você quer ser quando crescer? E eu, sem hesitar: — Bombeiro. Ou piloto de avião. Mais tarde, quando descobri que o coração também tem ritmo, acrescentei: — Ou baterista. O espelho ri, porque sabe que a vida tem mania de dobrar esquinas que a gente nem imaginava. E então me devolve, como num filme acelerado, o homem que fui virando: músico, programador de computadores, gestor, educador em tecnologia. Viajei de avião — não pilotando, mas olhando pela janelinha sempre encantado com as nuvens — e apaguei muitos incêndios, desses que não aparecem no noticiário, mas consomem empresas, projetos e noites mal dormidas. ...

Os significados

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A gente costuma pensar que a vida se mede pelos anos, pelos feitos, pelos lugares por onde passamos. Mas, no fundo, ela se revela mesmo é nos significados que damos ao que fazemos. Lembro sempre da velha história dos três operários trabalhando na mesma obra. Perguntaram ao primeiro o que ele fazia, e ele respondeu, sem levantar muito os olhos: “Estou assentando pedras.” O segundo, com um pouco mais de entusiasmo, disse que construía uma escada. Já o terceiro abriu um sorriso sereno, desses que vêm de dentro, e afirmou: “Eu estou ajudando a erguer uma catedral.” É curioso como essa parábola atravessa minha própria vida. Na primeira formação do Bossa Jazz Trio, eu era apenas um garoto encantado com o som da bateria, tentando vencer a timidez e, quem sabe, chamar a atenção das “menininhas do bairro”. Nada muito elaborado. Só a alegria de descobrir que minhas mãos tinham um jeito próprio de conversar com as baquetas. Depois veio a segunda formação — aquela que se firmou, ganhou nome, prop...

Pegadas no Central Park

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  Foi ao revisitar minhas memórias que emergiu um mosaico querido: o famoso painel de Pompéia, recriado com a palavra Imagine no centro, presente da cidade de Nápoles ao memorial de John Lennon, no Central Park. Ali onde Lennon caminhava e meditava, tantas vezes tentei acompanhar seus passos — não com os pés, mas com a alma. Permanecia naquela alameda por longos instantes, pensando na possibilidade de um mundo unido, sem fronteiras, movido pela paz e pelo bem comum. Eu acreditava nisso com fervor juvenil. Ainda acredito, embora a esperança hoje carregue sombras. Com o tempo aprendi que o idealismo não basta. Admirador de Luther King e Gandhi, descobri que até o mais pacífico dos espíritos é desafiado pela realidade humana. Lembro-me das palavras duras de Barack Obama, que desfizeram meu romantismo por alguns instantes como quem quebra uma tessela frágil: “O mal existe no mundo. Um movimento de não violência não poderia ter parado os Exércitos de Hitler... A força é necessária ...

As saudades do Rio de maio

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  Há músicas que não tocam apenas os ouvidos. Elas se instalam na memória como um cheiro antigo – o cheiro do Rio de Janeiro - uma luz de fim de tarde, um lugar ao qual sempre se volta sem perceber. Comigo, Rio de Maio é assim. Basta ouvir os primeiros acordes para que o Rio de Janeiro reapareça inteiro, mesmo que a cidade já não seja exatamente a mesma. Sempre me reconheci na música de Ivan Lins. Ela pode ser uma trilha sonora da minha vida. Talvez porque tenhamos a mesma idade, talvez porque a vida vá afinando a escuta com o tempo. Suas canções nunca me pareceram apenas canções: eram paisagens emocionais, feitas de harmonia sofisticada e de uma melancolia elegante, dessas que não pedem desculpa por existir. Há romantismo ali, sim, mas um romantismo maduro, que conhece as perdas e, ainda assim, insiste. O Rio ocupa um lugar definitivo nessa trilha sonora que me acompanha. Não é apenas cenário: é um acorde maior que insiste em soar, mesmo quando o silêncio tenta se impor. Foi ...

O sorriso da Alicia Keys

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Há artistas que nos conquistam pela técnica, outros pela presença, alguns pela história que carregam na voz. Alicia Keys, porém, tem algo que escapa a qualquer explicação objetiva: um sorriso que ilumina antes mesmo que ela cante a primeira nota. Sempre que a vejo — seja num vídeo antigo, numa apresentação ao vivo ou numa entrevista despretensiosa — fico com a sensação de que aquele sorriso diz mais do que qualquer discurso preparado. Um sorriso verdadeiro revela muito de uma pessoa. É quase um atalho para a alma, uma fresta por onde escapa a essência. No caso de Alicia, o sorriso parece carregar a mesma honestidade que ela coloca nas melodias, como se cada curva dos lábios fosse uma extensão natural do piano que a acompanha desde menina. Há algo de desarmado ali, algo que não se ensaia. Enquanto ela sorri, percebo que a personalidade inteira se manifesta: a força suave, a confiança sem arrogância, a sensibilidade que não teme ser vista. É curioso como um gesto tão simples pode ser mai...

Quando a lua se despede

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  Acordei cedo, desses despertares em que o mundo ainda boceja. Fui até a janela quase por hábito, quase por necessidade, e lá estava ela: a lua, inteira, silenciosa, se despedindo da noite. Há nela um fascínio que nunca soube explicar direito, uma influência sutil que toma conta de mim por inteiro, como se sua presença alterasse algo em meu interior. Na véspera, não a vi. O céu estava fechado, pesado, e fui dormir com aquela solidão sem nome, como quem perde um encontro marcado. Mas o dia amanhece — e isso muda tudo. A lua, paciente, parecia dizer que algumas ausências são apenas pausas. Que nem tudo o que se encobre desaparece. Sempre me espanta essa energia silenciosa que ela carrega, algo que não ilumina apenas o céu, mas mexe com zonas que não sei nomear. Ela se retirava devagar pelo oeste, enquanto o sol, ainda tímido, ensaiava sua chegada pelo leste. Um movimento simples, repetido desde sempre, mas que insiste em nos lembrar: os ciclos seguem, mesmo quando a gente duvida. Há...

Quando Elis Levou o Brasil ao Mundo

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Há nomes que não se apagam. Há vozes que não se calam. E há presenças — como a de Elis Regina Carvalho Costa — que continuam entre nós mesmo depois de terem passado, em 19 de janeiro de 1982, para outra dimensão. Elis permanece: mito, referência, farol. Uma estrela de brilho tão próprio que parece iluminar de dentro para fora. Volto então a janeiro de 1968, quando a história decidiu abrir uma fresta luminosa para a música brasileira. Elis, cantando Upa Neguinho , subiu ao palco do Palácio dos Festivais, em Cannes, acompanhada por Amilson Godoy ao piano, Jurandir Meireles no contrabaixo e por mim, José Roberto Sarsano, na bateria — o nosso Bossa Jazz Trio. Ali, diante de uma das plateias mais exigentes do mundo, algo raro aconteceu: a surpresa. A revelação. O espanto bom. Dois meses depois, em março, Elis se tornaria a primeira cantora brasileira a pisar no mítico Teatro Olympia de Paris, abrindo as portas de sua carreira europeia — e levando conosco, o Bossa Jazz Trio, a música brasile...