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Mosaico

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Mosaico nasce de um amadurecimento que não é apenas literário, mas de vida. Depois de anos acreditando que a narrativa contínua era o caminho natural para contar uma trajetória, compreendi que a vida não se oferece assim. Ela chega em fragmentos: cenas breves, lembranças que insistem,  pensamentos que retornam sob outra luz. Este livro reúne textos escritos a partir desse reconhecimento — e dessa  necessidade. Cheguei a um momento em que revisitar o cotidiano tornou-se uma forma de revisitar a mim mesmo. Escutar o que ressoa nos gestos mínimos, nas conversas, nos lugares, permitiu-me entender não apenas quem fui e quem sou, mas o que as épocas que atravessamos fizeram de nós. Mosaico nasce desse impulso: transformar experiência vivida em reflexão e iluminar zonas que ficaram à sombra. Escrevo porque acredito no poder da narrativa da vida em transformar a própria vida — e porque algumas histórias só fazem sentido quando compartilhadas. As crônicas parte...

O mundo visto em pequenas peças

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Os romanos cobriam o chão de suas casas com histórias. Pequenas pedras coloridas, alinhadas com paciência, revelavam deuses distraídos, animais em movimento, cenas de caça, banquetes e gestos cotidianos. Nada era grande por si só: cada imagem dependia de infinitas partes minúsculas, como se a vida só pudesse ser compreendida quando observada peça a peça. Séculos depois, no Rio de Janeiro, outro mosaico se estende sob os pés de quem caminha sem pressa. As calçadas de Copacabana, com suas ondas pretas e brancas, não contam mitos nem narram batalhas, mas desenham o próprio ritmo do mar. São um mosaico cotidiano, atravessado por passos anônimos, encontros casuais, lembranças e despedidas. Um chão que se move mesmo sendo pedra, e que só existe porque alguém decidiu transformar fragmentos em paisagem. Também, no Rio de Janeiro, o que poucos lembram, ou sequer sabem, é que o Cristo Redentor, aquele gigante de braços abertos abençoando a cidade, não é liso, nem uniforme. Ele é revestido de p...

Ser paulistano

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Hoje, 25 de janeiro de 2026, Medellín amanheceu com a beleza do seu céu de montanhas e nuvens, mas quem ocupou a minha sala, a minha televisão e o meu peito foi ela: São Paulo. Quatrocentos e setenta e dois anos. Uma senhora que nunca envelhece, porque reinventa o próprio tempo. E eu, tão longe e tão perto, senti aquele velho nó na garganta — o mesmo que aparece quando a memória decide puxar a cadeira ao meu lado e se sentar para conversar. São Paulo é o meu berço. Minha primeira paisagem. Nasci ali perto da avenida Paulista, na Maternidade São Paulo, como quem já chega ao mundo em meio ao ruído dos motores, à pressa das calçadas e ao vaivém incessante da cidade grande. Cresci junto com ela. Enquanto eu aprendia a ser gente, São Paulo aprendia a ser metrópole.  Enquanto as imagens da avenida Paulista desfilavam na tela, lembrei-me de que ali fui feliz de um jeito que só a juventude sabe ser. Cresci entre buzinas e livrarias, amei sob garoas teimosas, fui desafiado por cada es...

A casa antiga

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    A casa da adolescência, em São Paulo, nunca desapareceu. Sumiu do terreno, é verdade — virou reforma, poeira, outra história —, mas continua inteira dentro de mim, preservada como aquelas fotografias que o tempo insiste em não desbotar. Meu pai a comprou no auge da vida profissional, orgulhoso da modernidade que ela exibia. Para mim, era simplesmente o cenário dos anos mais felizes que já vivi. Ainda caminho, por dentro de mim, por aquele corredor comprido que parecia maior cada vez que eu o lembrava. Era por ali que os carros deslizavam até a garagem escondida no fundo do terreno, como quem chega devagar para não acordar a casa. Na frente, o jardim e a fonte — cuidados por minha mãe com a mesma dedicação de quem cria um filho — davam as boas-vindas a quem chegasse. E havia o quintal, sempre ensolarado, onde o salão guardava o velho Steinway & Sons e todos os ecos que só as casas que já viram muita vida conseguem guardar. Com o tempo, descobri que a memória n...

O menino diante do espelho

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  De vez em quando, quando a casa amanhece silenciosa e o mundo lá fora parece distraído, eu me aproximo do espelho. Não para ajeitar o cabelo — isso já não me preocupa há tempos — mas para reencontrar alguém que insiste em me visitar: o menino que fui. Ele aparece sempre do mesmo jeito, curioso, com aquela pergunta que os adultos adoravam fazer: — Menino, o que você quer ser quando crescer? E eu, sem hesitar: — Bombeiro. Ou piloto de avião. Mais tarde, quando descobri que o coração também tem ritmo, acrescentei: — Ou baterista. O espelho ri, porque sabe que a vida tem mania de dobrar esquinas que a gente nem imaginava. E então me devolve, como num filme acelerado, o homem que fui virando: músico, programador de computadores, gestor, educador em tecnologia. Viajei de avião — não pilotando, mas olhando pela janelinha sempre encantado com as nuvens — e apaguei muitos incêndios, desses que não aparecem no noticiário, mas consomem empresas, projetos e noites mal dormidas. ...

Os significados

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A gente costuma pensar que a vida se mede pelos anos, pelos feitos, pelos lugares por onde passamos. Mas, no fundo, ela se revela mesmo é nos significados que damos ao que fazemos. Lembro sempre da velha história dos três operários trabalhando na mesma obra. Perguntaram ao primeiro o que ele fazia, e ele respondeu, sem levantar muito os olhos: “Estou assentando pedras.” O segundo, com um pouco mais de entusiasmo, disse que construía uma escada. Já o terceiro abriu um sorriso sereno, desses que vêm de dentro, e afirmou: “Eu estou ajudando a erguer uma catedral.” É curioso como essa parábola atravessa minha própria vida. Na primeira formação do Bossa Jazz Trio, eu era apenas um garoto encantado com o som da bateria, tentando vencer a timidez e, quem sabe, chamar a atenção das “menininhas do bairro”. Nada muito elaborado. Só a alegria de descobrir que minhas mãos tinham um jeito próprio de conversar com as baquetas. Depois veio a segunda formação — aquela que se firmou, ganhou nome, prop...