Postagens

Mostrando postagens de outubro, 2020

Quando a emoção fala

Imagem
Há nomes que não se apagam. Há vozes que não se calam. E há presenças — como a de Elis Regina Carvalho Costa — que continuam entre nós mesmo depois de terem passado, em 19 de janeiro de 1982, para outra dimensão. Elis permanece: mito, referência, farol. Uma estrela de brilho tão próprio que parece iluminar de dentro para fora. Volto então a janeiro de 1968, quando a história decidiu abrir uma fresta luminosa para a música brasileira. Elis, cantando Upa Neguinho , subiu ao palco do Palácio dos Festivais, em Cannes, acompanhada por Amilson Godoy ao piano, Jurandir Meireles no contrabaixo e por mim, José Roberto Sarsano, na bateria — o nosso Bossa Jazz Trio. Ali, diante de uma das plateias mais exigentes do mundo, algo raro aconteceu: a surpresa. A revelação. O espanto bom. Dois meses depois, em março, Elis se tornaria a primeira cantora brasileira a pisar no mítico Teatro Olympia de Paris, abrindo as portas de sua carreira europeia — e levando conosco, o Bossa Jazz Trio, a música brasile...

Mil dias antes de te conhecer

Imagem
Conheci Francisco Buarque de Holanda numa dessas noites que o tempo guarda com carinho, como quem esconde um bilhete precioso entre as páginas de um livro. Era 1964, teatro da Universidade Mackenzie, um show de música popular brasileira. Estávamos todos começando: ele, Chico; Toquinho; e eu, com o Bossa Jazz Trio. Não sabíamos, mas aquele palco era uma espécie de batismo coletivo. Para mim, marcou a vida inteira — não só por dividir a cena com esses mestres da MPB, mas porque dali nasceu o convite para gravar o primeiro disco do Trio, fruto de uma apresentação que ainda hoje me visita como memória luminosa. Depois disso, nossos caminhos se cruzaram muitas vezes. A mais marcante foi em Porto Alegre, num show com Chico, Nara Leão e o Quarteto em Cy. Lembro-me do instante em que ele ganhou o primeiro lugar no festival com A Banda . Um sucesso tão grande que parecia atravessar o país como um vento alegre. O Brasil inteiro cantava. E eu, admirador profundo da arte do Chico, sentia orgulho ...

A vida em modo abreviado

Imagem
  Como professor de português, confesso que ler Martha Medeiros é sempre um pequeno espelho incômodo — desses que não deformam, apenas revelam. Ao comentar sua crônica Abreviados , percebo que não se trata apenas de linguagem, mas de algo mais profundo, quase silencioso: a maneira como estamos encurtando a própria experiência de viver. Ela começa falando das palavras, e isso me toca diretamente. Afinal, ensino um idioma que sempre me pareceu generoso em sons, em aberturas, em possibilidades. Lembro — como ela — de quando “vosmecê” virou “você”, e isso já parecia uma revolução suficiente. Mas não. O mundo não se contenta com pausas. E agora temos o “vc”, o “q”, o “tb”, pequenos fragmentos de uma fala que já não quer ocupar espaço nem tempo. E eu me pergunto, como professor: o que se perde quando a palavra se encurta? Será apenas a forma — ou também o fôlego do pensamento? Talvez por isso eu volte, quase instintivamente, a uma canção que atravessa a minha própria história: Up...

Talento, desejo e oportunidade

Imagem
Quando penso na palavra vocação, não a imagino como um conceito abstrato de dicionário. Ela sempre me chega como um som — primeiro um ruído tímido, depois um chamado mais nítido, quase como aquele toque de baqueta que inaugura uma música. Talvez porque, para mim, tudo começou assim: no ritmo. A música foi a primeira a me chamar pelo nome, antes mesmo que eu soubesse que “vocare”, em latim, significava exatamente isso — um chamado. Mais tarde, a Educação veio como um segundo sopro, desses que reorganizam o destino de alguém. Descobri que ensinar é uma forma de compor: você trabalha com silêncios, pausas, intensidades, e tenta, com delicadeza, afinar o mundo interior de outra pessoa. E quando percebe que seu gesto — uma explicação, uma escuta, uma palavra — pode transformar o caminho de alguém, entende que há profissões que devolvem sentido à própria vida. Mas nada disso acontece sozinho. Nenhuma vocação floresce no deserto. E, apesar das desconfianças inevitáveis — as nossas e as ...