A vida em modo abreviado

 

Como professor de português, confesso que ler Martha Medeiros é sempre um pequeno espelho incômodo — desses que não deformam, apenas revelam. Ao comentar sua crônica Abreviados, percebo que não se trata apenas de linguagem, mas de algo mais profundo, quase silencioso: a maneira como estamos encurtando a própria experiência de viver.

Ela começa falando das palavras, e isso me toca diretamente. Afinal, ensino um idioma que sempre me pareceu generoso em sons, em aberturas, em possibilidades. Lembro — como ela — de quando “vosmecê” virou “você”, e isso já parecia uma revolução suficiente. Mas não. O mundo não se contenta com pausas. E agora temos o “vc”, o “q”, o “tb”, pequenos fragmentos de uma fala que já não quer ocupar espaço nem tempo.

E eu me pergunto, como professor: o que se perde quando a palavra se encurta? Será apenas a forma — ou também o fôlego do pensamento?

Talvez por isso eu volte, quase instintivamente, a uma canção que atravessa a minha própria história: Upa Neguinho. Ela me acompanha como um fio que costura passado e presente. A letra, vocês sabem, brinca com a sonoridade: andá, apanhá, cantá, ensiná. Não pretende a norma culta; pretende algo mais fundo — a verdade de um dialeto, a pulsação de uma língua viva.

É a língua dos africanos trazidos ao Brasil e de seus descendentes. A mesma que nos deu o doce “sinhô” no lugar de “senhor”. Uma língua que não empobrece — ao contrário, reinventa, recria, resiste. É essa dicção que ecoa em Jorge de Lima, em seus poemas negros, e que ganha corpo também em Arena conta Zumbi, de onde nasceu a própria canção.

E então me dou conta de um contraste que me inquieta.

Há uma diferença imensa entre a abreviação que nasce da vida — como em Upa Neguinho, onde a língua se molda à experiência, à dor, à cultura — e a abreviação que nasce da pressa, da superficialidade, do desinteresse. Uma encurta para caber no mundo; a outra encurta porque já não quer habitá-lo.

Martha Medeiros não se espanta com a mudança da língua — e nem eu deveria. A língua vive, respira, se adapta. Sempre foi assim. Mas o que inquieta não é a transformação em si. É a velocidade com que ela acontece e, principalmente, o que ela revela sobre nós. Já não nos espantamos, diz ela. E talvez seja isso: perdemos até o tempo do espanto.

Quando leio sobre legendas abreviadas em filmes, quase sorrio — não de humor, mas de reconhecimento. É como se estivéssemos treinando nossos olhos para ler menos e nossa sensibilidade para sentir menos ainda. Hoje abreviamos as palavras; amanhã, quem sabe, abreviaremos as ideias. Depois, os afetos.

E então chegamos ao ponto em que a crônica deixa de ser sobre linguagem e passa a ser sobre existência.

“Abreviamos sentimentos, abreviamos conversas, abreviamos convivência...” — essa enumeração ecoa em mim como um diagnóstico. Não é apenas a pressa. É uma espécie de escolha coletiva por uma vida reduzida, editada, fragmentada. Vivemos em flashes, como se a continuidade fosse um luxo antigo, quase ultrapassado.

E há algo profundamente irônico nisso tudo: nunca soubemos tanto sobre a vida dos outros, e nunca estivemos tão distantes. Sabemos tudo — e não conhecemos ninguém. Como professor, vejo isso também na linguagem: muita informação, pouca elaboração; muita exposição, pouca escuta.

Talvez o que mais me impressiona na crônica — e no eco que ela encontra na minha própria memória — seja a metáfora final das vogais. Cinco apenas: abertas, sonoras, essenciais. Perdê-las não é só um fenômeno linguístico; é um sintoma.

Porque houve um tempo — e ele ainda vive em canções como Upa Neguinho — em que a língua era corpo, era ritmo, era encontro. Hoje, temo que ela esteja se tornando apenas código.

E, nesse ritmo, talvez Martha Medeiros esteja certa: um dia, em vez de palavras, restarão apenas ruídos. Não por falta de língua, mas por falta de mundo interior.

Ao fechar o texto, fico com a pergunta que ela deixa no ar — e que, como professor e como alguém atravessado por essas vozes todas, não consigo ignorar:

Estamos nos modernizando… ou apenas desaprendendo a dizer — e a viver — por inteiro?

 


Comentários