Pegadas no Central Park

 


Foi ao revisitar minhas memórias que emergiu um mosaico querido: o famoso painel de Pompéia, recriado com a palavra Imagine no centro, presente da cidade de Nápoles ao memorial de John Lennon, no Central Park. Ali onde Lennon caminhava e meditava, tantas vezes tentei acompanhar seus passos — não com os pés, mas com a alma. Permanecia naquela alameda por longos instantes, pensando na possibilidade de um mundo unido, sem fronteiras, movido pela paz e pelo bem comum.

Eu acreditava nisso com fervor juvenil. Ainda acredito, embora a esperança hoje carregue sombras. Com o tempo aprendi que o idealismo não basta. Admirador de Luther King e Gandhi, descobri que até o mais pacífico dos espíritos é desafiado pela realidade humana. Lembro-me das palavras duras de Barack Obama, que desfizeram meu romantismo por alguns instantes como quem quebra uma tessela frágil:

“O mal existe no mundo. Um movimento de não violência não poderia ter parado os Exércitos de Hitler... A força é necessária em algumas ocasiões...”

E, das palavras de Gilberto Gil na sua canção A Paz:

“Como aquela grande explosão, uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz... Que contradição, só a guerra faz nosso amor em paz...”

De ambos, é um reconhecimento da história, das imperfeições humanas e dos limites da razão.

Há coisas que o tempo insiste em não levar embora. A Venezuela, por exemplo, atravessa as décadas como quem caminha com pedras nos bolsos: pesada, lenta, respirando pela metade. E, nesse cenário, a oposição pacífica — essa teimosia bonita que acredita na força da palavra — passou mais de vinte anos tentando abrir frestas no muro erguido pelo chavismo e mantido por Nicolás Maduro.

Mas o muro não cedeu. Nem com discursos, nem com marchas, nem com a fé quase religiosa de quem acredita que a democracia, um dia, volta para casa. E então veio aquilo que muitos temiam, outros esperavam, e todos sabiam que deixaria marcas: a intervenção dos Estados Unidos. Uma presença que, como quase sempre na história latino-americana, chega com promessas, interesses, consequências — e sequelas.

No fim, fica essa sensação amarga de que, por mais que um povo tente, às vezes a balança do poder só se move quando mãos de fora empurram. E nós, observadores desse tempo turbulento, seguimos anotando no caderno da memória mais um capítulo de um continente que nunca aprendeu a viver sem interferências, nem internas, nem externas.

Desde então, essas palavras ecoam em mim: o mal não tem limites, a razão sim. E, no entanto, seguimos com o livre-arbítrio nas mãos. Por que complicamos tanto? Por que tratar como ingenuidade a busca sincera pela honestidade, pela justiça, pela vida vivida com ética e humanidade?

Quando não questionamos, não resistimos, não buscamos alternativas, acabamos sustentando — mesmo sem intenção — o que nos fere.


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