A casa antiga
A casa da adolescência, em São Paulo, nunca desapareceu. Sumiu do terreno, é verdade — virou reforma, poeira, outra história —, mas continua inteira dentro de mim, preservada como aquelas fotografias que o tempo insiste em não desbotar.
Meu pai a comprou no auge da vida profissional, orgulhoso da modernidade que ela exibia. Para mim, era simplesmente o cenário dos anos mais felizes que já vivi.
Ainda caminho, por dentro de mim, por aquele corredor comprido que parecia maior cada vez que eu o lembrava. Era por ali que os carros deslizavam até a garagem escondida no fundo do terreno, como quem chega devagar para não acordar a casa.
Na frente, o jardim e a fonte — cuidados por minha mãe com a mesma dedicação de quem cria um filho — davam as boas-vindas a quem chegasse. E havia o quintal, sempre ensolarado, onde o salão guardava o velho Steinway & Sons e todos os ecos que só as casas que já viram muita vida conseguem guardar.
Com o tempo, descobri que a memória não arquiva fatos, mas atmosferas. Guarda climas, luzes, cheiros, felicidades inteiras. É nesses climas que sigo morando.
Abro uma janela dentro de mim e vejo os almoços de domingo, o cheiro da
comida preparada por minha mãe — com a ajuda fiel de Anísia, que era família
muito antes de qualquer definição — espalhando-se pela casa.
Vejo também as horas em que eu lavava e polia minha motocicleta, como se aquele ritual de fim de semana fosse um rito secreto de passagem para a vida adulta. As festas de Natal e Ano Novo, as reuniões com amigos, as tardes de domingo diante da televisão vendo o Circo do Arrelia, quando o tempo parecia caminhar mais devagar… tudo isso ainda mora ali, intacto.
Mais tarde, o salão do fundo virou meu território de som. Ali estudei bateria, ensaiei com o Bossa Jazz Trio, recebi Elis Regina e tantos outros nomes da música brasileira que, sem fazer alarde, passaram a compor a mobília afetiva daquele espaço.
Da sala de visitas, minha mãe, ao piano de cauda que meu pai lhe dera, preenchia a casa com Bach, Beethoven, Chopin — como se a música fosse uma forma de manter o mundo em ordem. As reuniões musicais atravessavam madrugadas, com barítonos, sopranos e bailarinos do Teatro Municipal, todos amigos dela, todos acolhidos por meu pai, que desafinava até quando tocava a campainha, mas nunca desafinava no entusiasmo.
E eu, tropeçando nas primeiras notas do noturno de Chopin, acreditava que aqueles instantes durariam para sempre.
Talvez durem mesmo. Porque certas casas, mesmo demolidas, continuam de
pé dentro da gente — firmes, luminosas, intactas no único lugar onde o tempo
não manda.

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