As saudades do Rio de maio

 


Há músicas que não tocam apenas os ouvidos. Elas se instalam na memória como um cheiro antigo – o cheiro do Rio de Janeiro - uma luz de fim de tarde, um lugar ao qual sempre se volta sem perceber. Comigo, Rio de Maio é assim. Basta ouvir os primeiros acordes para que o Rio de Janeiro reapareça inteiro, mesmo que a cidade já não seja exatamente a mesma.

Sempre me reconheci na música de Ivan Lins. Ela pode ser uma trilha sonora da minha vida. Talvez porque tenhamos a mesma idade, talvez porque a vida vá afinando a escuta com o tempo. Suas canções nunca me pareceram apenas canções: eram paisagens emocionais, feitas de harmonia sofisticada e de uma melancolia elegante, dessas que não pedem desculpa por existir. Há romantismo ali, sim, mas um romantismo maduro, que conhece as perdas e, ainda assim, insiste.

O Rio ocupa um lugar definitivo nessa trilha sonora que me acompanha. Não é apenas cenário: é um acorde maior que insiste em soar, mesmo quando o silêncio tenta se impor. Foi ali que vivi momentos marcantes, desses que não se repetem nem com boa vontade do destino. O Rio dos amores, da bossa nova que parecia nascer do vento, dos eventos musicais em que também subi ao palco, dos passeios pela história escondida nas esquinas, do clima preguiçoso e da cultura que só uma cidade praiana sabe cultivar.

É o Rio de maio e de todos os meses — aquele que volta inteiro quando menos espero, como se a memória tivesse suas próprias marés. São Paulo e Rio, minhas duas cidades no Brasil, convivem dentro de mim como dois compassos distintos da mesma música. E é no Rio que hoje mora minha filha, o que transforma tudo em algo ainda mais delicado. A cidade deixou de ser apenas lembrança e passou a ser presença distante, porém constante, como uma carta que nunca chega, mas que a gente sabe que foi escrita. Cada saudade agora vem em duas camadas: a da cidade que mudou e a da pessoa que permanece. E eu, entre essas duas superfícies, sigo ouvindo o Rio tocar.

Quando Ivan canta sobre o mar, eu entendo. Não apenas como imagem, mas como pulso. “O batimento das marés é blues, é jazz, é bossa.” Sempre achei que essa frase dizia tudo. O jazz entrou cedo na minha vida. O jazz ensina a escutar o outro, a respeitar o silêncio, a aceitar que o erro também pode virar caminho. Improvisar não é se perder — é confiar.

Foi dessa escuta que nasceu o Bossa Jazz Trio. O maior ato de criação da minha vida. Mas não como projeto grandioso, mas como necessidade, no qual a música pudesse respirar, conversar, se mover livremente entre o rigor do arranjo e a liberdade de se expressar. Uma forma de tocar na qual o jazz encontrasse a bossa sem pedir licença. Uma travessia musical criativa, contemporânea.

Ivan Lins sempre foi isso para mim: um compositor de travessias. Sua música atravessou décadas, fronteiras, idiomas, vozes. Ganhou o mundo sem perder o sotaque. Talvez porque, no fundo, fale de coisas simples e essenciais: o tempo, os filhos, os recomeços, a memória. Coisas que não envelhecem. Sou seu fã incondicional. Identifico-me totalmente com a sonoridade, a melodia e as letras perfeitas de seus parceiros, e o romantismo das suas canções.

O Rio de Maio que sinto falta talvez não exista mais. Ou talvez exista apenas do jeito que as músicas existem: intactas dentro da gente, mesmo quando o mundo muda ao redor. Entre uma lembrança, um acorde de jazz e uma caminhada imaginária à beira-mar, sigo compondo meu próprio mosaico de afetos. E aceito — como quem improvisa — que a saudade também faz parte da harmonia.



 

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