Os significados


A gente costuma pensar que a vida se mede pelos anos, pelos feitos, pelos lugares por onde passamos. Mas, no fundo, ela se revela mesmo é nos significados que damos ao que fazemos. Lembro sempre da velha história dos três operários trabalhando na mesma obra. Perguntaram ao primeiro o que ele fazia, e ele respondeu, sem levantar muito os olhos: “Estou assentando pedras.” O segundo, com um pouco mais de entusiasmo, disse que construía uma escada. Já o terceiro abriu um sorriso sereno, desses que vêm de dentro, e afirmou: “Eu estou ajudando a erguer uma catedral.”

É curioso como essa parábola atravessa minha própria vida.
Na primeira formação do Bossa Jazz Trio, eu era apenas um garoto encantado com o som da bateria, tentando vencer a timidez e, quem sabe, chamar a atenção das “menininhas do bairro”. Nada muito elaborado. Só a alegria de descobrir que minhas mãos tinham um jeito próprio de conversar com as baquetas.

Depois veio a segunda formação — aquela que se firmou, ganhou nome, propósito e estrada. Ali eu já não era mais o menino tímido: era um músico com objetivos claros, mergulhado na MPB e na proposta ousada de misturar Bossa com Jazz. Tinha um sonho, uma imagem mental nítida, e me coloquei em movimento para alcançá-la. O tempo passou, mais de cinquenta anos, e o legado continua aí, respirando.

Mas com Elis Regina… ah, com Elis foi diferente.

Não houve planejamento, nem mapa, nem ambição calculada. Foi o acaso — ou o destino, se preferir — alinhando tempo, espaço e pessoas. Eu tinha talento, é verdade, e trabalhava duro para lapidá-lo. Mas também estava no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. E isso, às vezes, vale tanto quanto anos de estudo.

Quando passei a acompanhá-la, a consciência do que aquilo significava caiu sobre mim com o peso e a beleza de um vitral iluminado. Não era qualquer cantora. Era a cantora. A melhor do Brasil. E eu ali, responsável por sustentar, com minhas mãos, parte daquele monumento sonoro.

Veio o disco Elis 66, o Festival MIDEM em Cannes, o Teatro Olympia em Paris, 1968. E, de repente, percebi: eu não estava apenas tocando bateria. Não estava apenas construindo uma escada musical. Eu estava colaborando para erguer uma catedral. Uma daquelas que atravessam gerações, que ecoam muito depois que os operários já se foram.

Só não imaginava — e talvez ainda não imagine por completo — a dimensão dessa catedral. Mas, 60 anos depois, ela está aí, de pé, viva, ressoando. E eu, felizmente, fui um dos que ajudaram a colocar suas pedras.

 


 

Comentários