Quando a lua se despede

 


Acordei cedo, desses despertares em que o mundo ainda boceja. Fui até a janela quase por hábito, quase por necessidade, e lá estava ela: a lua, inteira, silenciosa, se despedindo da noite. Há nela um fascínio que nunca soube explicar direito, uma influência sutil que toma conta de mim por inteiro, como se sua presença alterasse algo em meu interior. Na véspera, não a vi. O céu estava fechado, pesado, e fui dormir com aquela solidão sem nome, como quem perde um encontro marcado.

Mas o dia amanhece — e isso muda tudo.

A lua, paciente, parecia dizer que algumas ausências são apenas pausas. Que nem tudo o que se encobre desaparece. Sempre me espanta essa energia silenciosa que ela carrega, algo que não ilumina apenas o céu, mas mexe com zonas que não sei nomear. Ela se retirava devagar pelo oeste, enquanto o sol, ainda tímido, ensaiava sua chegada pelo leste. Um movimento simples, repetido desde sempre, mas que insiste em nos lembrar: os ciclos seguem, mesmo quando a gente duvida.

Há manhãs assim. Elas não carregam o peso da noite anterior. Não perguntam como dormimos, nem exigem justificativas. Começam. Apenas isso. Trazem consigo todos os ingredientes da vida — a normalidade de antes, a normalidade de depois, a possibilidade intacta do agora.

E então a solidão se dissolve, não porque tudo se resolveu, mas porque algo se abriu. Talvez seja essa a energia que a lua me traz: não respostas, mas presença. Como se o céu dissesse, sem palavras: o que precisava estar aberto, está. O que precisava estar fechado, também. Respire.

Vale a pena correr até a janela. Vale a pena olhar para cima. Porque quando a lua se despede assim, tão inteira, ela anuncia mais do que o fim da noite. Anuncia que o sol vem chegando para dizer, outra vez, bom dia.

E, como já cantava Cartola na sua inspiradíssima canção “Corra e Olhe o Céu”, melhor do que eu jamais poderia escrever: "No que se apresenta, o triste se ausenta, fez-se a alegria. Corra e olhe o céu, que o sol vem trazer... Bom dia!" Um símbolo de recomeço, de clareza, de esperança.

 

Escute esta inspiradíssima canção do Cartola, 
com a sensível interpretação de Vânia Bastos


Corra e Olhe o Céu
Cartola

Linda!
Te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só
Mas
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia

Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia

Linda!
Te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só
Mas
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia

Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia


Comentários