Os custo de ser quem somos
“Não permita que o comportamento dos outros tire a sua paz interior”, diz o Dalai Lama. Fácil de ler, difícil de praticar. Porque, no fim das contas, cada pessoa que cruza o nosso caminho parece carregar uma versão diferente de nós no bolso.
Para alguns, somos guerreiros incansáveis; para outros, ingratos que não reconhecem nada. Há quem nos veja como referência, e há quem nos enxergue como ultrapassados. Em certos olhos, somos humildes e bem-intencionados; em outros, arrogantes, egocêntricos, quase uma caricatura do que jamais fomos.
E o curioso é que nenhuma dessas versões é totalmente nossa. São reflexos, recortes, projeções. Somos o que fazemos, sim — mas também somos o que a cabeça e o coração alheios inventam sobre nós. E isso, por mais que doa admitir, está completamente fora do nosso alcance.
Ainda assim, insistimos em tentar explicar nossas escolhas, justificar nossos passos, corrigir interpretações que não pedimos. Gastamos energia tentando convencer quem já decidiu o que quer pensar. E, enquanto isso, a vida — a nossa vida — fica ali, esperando que a gente volte para ela.
Chega uma hora em que a conta não fecha. Percebemos que é inútil disputar narrativas que não nos pertencem. Que há um desgaste silencioso em tentar caber no molde que o outro imaginou. E que, no fundo, a única escolha real é esta: assumir quem somos ou viver eternamente tentando ser o que esperam de nós.
A paz interior não nasce quando o mundo nos entende. Ela nasce quando finalmente aceitamos que o mundo não vai nos entender sempre — e tudo bem. Há uma liberdade imensa em soltar o controle que nunca tivemos.
No fim, cada um carrega sua
própria lente. E nós carregamos apenas a responsabilidade de manter limpo o
espaço onde realmente podemos tocar: o nosso próprio coração.

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