A visita
Era um dia como tantos outros. A manhã ainda se ajeitava no horizonte: sol manso, temperatura agradável. Eu estava no escritório de casa, diante do computador, preparando aulas, embalado — como quase sempre — por uma trilha sonora discreta, dessas que não disputam espaço com o pensamento.
De repente, um som leve na janela. Um “toc toc”, quase um pedido. Olhei e lá estava ela: uma cotorra solitária, pousada no peitoril, equilibrada como quem conhece o segredo da leveza. Batia o bico no vidro, com a naturalidade de quem não estranha o limiar entre dentro e fora.
Aproximei-me devagar, com o cuidado de quem não quer assustar o que ainda não compreendeu. Ficamos ali, eu e ela, num silêncio raro — desses que só existem entre criaturas que não precisam provar nada uma à outra. Tanto, que tive a impressão de que a casa estava mais arejada com aquela presença verde na janela.
Notei com satisfação a brasilidade das cores de suas penas: verde, amarelo e azul. Não havia pressa. Havia algo de íntimo naquele olhar oblíquo, atento, quase humano, como se ela estivesse avaliando não o espaço, mas algo mais sutil: o clima invisível que paira sobre as casas, esse que só os animais parecem perceber. Por um instante, tive a sensação estranha de que ela me reconhecia. Não a mim, pessoa, mas a mim, morada — aquilo que carrego, o que deixo escapar, o que guardo sem nome.
O sol, ainda tímido, acendeu o verde das penas. Um verde que não existe em tinta alguma, só na natureza quando decide caprichar. Chamei minha esposa. Ela abriu mais a janela. A cotorra inclinou a cabeça, deu dois passos miúdos e soltou um chamado curto, quase confidencial. Como quem vem apenas conferir se está tudo em ordem.
Há visitas que não chegam para pedir nada. Chegam para lembrar. Lembrar que a vida continua circulando mesmo quando a gente se distrai. Que a alegria, às vezes, escolhe pousar sem aviso. Que a casa se abre como quem acolhe — e nós com ela — mesmo quando esquecemos de notar.
A cotorra entrou. Voou pelos cômodos, pousando um pouco em cada lugar, o tempo exato para que os conhecesse e para que entendêssemos o recado. Nem mais, nem menos que o necessário. Foram minutos apenas, mas suficientes. Minha esposa conversou com ela — e digo conversou porque, à maneira dela, a cotorra respondia. Chegou a pousar em seu ombro. Houve ali uma intimidade improvável, dessas que não pedem explicação.
Gostaríamos de ficar com ela, mas não à custa de uma gaiola. Levamo-la ao terraço. Ficamos juntos mais um pouco. Depois, sem drama, abriu as asas e partiu, deixando atrás de si um silêncio leve. Um silêncio que não pesa. Um silêncio que parece promessa. E essa visita acabou se tornando um tema alegre e constante entre minha esposa e eu.
Voltei ao escritório e fechei a janela devagar, como quem guarda um segredo recém recebido. Passei o resto do dia com a sensação de que algo bom tinha pousado em mim também — uma claridade discreta, dessas que não iluminam o mundo, mas iluminam o que importa.
Desde então, quando ouço um farfalhar de asas, não penso em superstição nem em sinal. Penso apenas que a vida, às vezes, envia mensageiros improváveis. E que cabe a nós manter a casa — e o coração — abertos para recebê-los.

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