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Mostrando postagens de 2020

Quando a lua se despede

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  Acordei cedo, desses despertares em que o mundo ainda boceja. Fui até a janela quase por hábito, quase por necessidade, e lá estava ela: a lua, inteira, silenciosa, se despedindo da noite. Há nela um fascínio que nunca soube explicar direito, uma influência sutil que toma conta de mim por inteiro, como se sua presença alterasse algo em meu interior. Na véspera, não a vi. O céu estava fechado, pesado, e fui dormir com aquela solidão sem nome, como quem perde um encontro marcado. Mas o dia amanhece — e isso muda tudo. A lua, paciente, parecia dizer que algumas ausências são apenas pausas. Que nem tudo o que se encobre desaparece. Sempre me espanta essa energia silenciosa que ela carrega, algo que não ilumina apenas o céu, mas mexe com zonas que não sei nomear. Ela se retirava devagar pelo oeste, enquanto o sol, ainda tímido, ensaiava sua chegada pelo leste. Um movimento simples, repetido desde sempre, mas que insiste em nos lembrar: os ciclos seguem, mesmo quando a gente duvida. Há...

Quando Elis Levou o Brasil ao Mundo

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Há nomes que não se apagam. Há vozes que não se calam. E há presenças — como a de Elis Regina Carvalho Costa — que continuam entre nós mesmo depois de terem passado, em 19 de janeiro de 1982, para outra dimensão. Elis permanece: mito, referência, farol. Uma estrela de brilho tão próprio que parece iluminar de dentro para fora. Volto então a janeiro de 1968, quando a história decidiu abrir uma fresta luminosa para a música brasileira. Elis, cantando Upa Neguinho , subiu ao palco do Palácio dos Festivais, em Cannes, acompanhada por Amilson Godoy ao piano, Jurandir Meireles no contrabaixo e por mim, José Roberto Sarsano, na bateria — o nosso Bossa Jazz Trio. Ali, diante de uma das plateias mais exigentes do mundo, algo raro aconteceu: a surpresa. A revelação. O espanto bom. Dois meses depois, em março, Elis se tornaria a primeira cantora brasileira a pisar no mítico Teatro Olympia de Paris, abrindo as portas de sua carreira europeia — e levando conosco, o Bossa Jazz Trio, a música brasile...

Aula de português com uma obra-prima

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Conheci Francisco Buarque de Holanda numa dessas noites que o tempo guarda com carinho, como quem esconde um bilhete precioso entre as páginas de um livro. Era 1964, teatro da Universidade Mackenzie, um show de música popular brasileira. Estávamos todos começando: ele, Chico; Toquinho; e eu, com o Bossa Jazz Trio. Não sabíamos, mas aquele palco era uma espécie de batismo coletivo. Para mim, marcou a vida inteira — não só por dividir a cena com esses mestres da MPB, mas porque dali nasceu o convite para gravar o primeiro disco do Trio, fruto de uma apresentação que ainda hoje me visita como memória luminosa. Depois disso, nossos caminhos se cruzaram muitas vezes. A mais marcante foi em Porto Alegre, num show com Chico, Nara Leão e o Quarteto em Cy. Lembro-me do instante em que ele ganhou o primeiro lugar no festival com A Banda . Um sucesso tão grande que parecia atravessar o país como um vento alegre. O Brasil inteiro cantava. E eu, admirador profundo da arte do Chico, sentia orgulho ...